Poesia é vontade criada e criativa,
que não há como ser saciada de forma inativa
só escrevendo, escrevendo, escrevendo...
com caneta ou com teclado
no final de um livro ou na porta do armário,
no primeiro pedacinho de papel que me aparece
durante a madrugada que o sol amanhece.
Na parede, no pensamento,
na espera, no movimento,
na chegada, no caminho, na partida,
no vidro empoeirado, no bilhete deixado,
na vida.

E a minha vida eu não sei viver sem ser escrevendo. Com palavras ditas ou guardadas (é que também escrevo por dentro)... ou partilhadas... aqui, por exemplo.

quinta-feira, 1 de março de 2012

Segredos

Coisas:
nem tantas
nem grandes
pequenas
e poucas apenas,
bem feitas!

A lágrima escorrega pelo coração
mas os lábios esboçam sorriso
o peito arde
o olhar sereno
aceita a vida ao redor
e entende o sofrimento
há significado
Feliz é quem sorri




                                         Maria Carol Reis

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Crescimento

Como a árvore em silêncio
No outono, permitindo que as folhas caiam
Perda
Preparação
Para suportar a rigidez do frio,
Cresce para dentro...
Cria raiz.
                                            Maria Carol Reis

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Os olhos enxergam aquilo que a gente quer enxergar

Um jardim rodeado por uma cerca enorme. Eu consigo focar a cerca, enxergar a cerca, só a cerca. Mas daí chego perto e tem espaços entre uma madeira e outra. Aproximo meu olhar. Deixo de enxergar a cerca e enxergo o que está lá dentro, entre os espaços da madeira. Vejo um jardim lindo. Vejo todo o jardim.
Quantas vezes na sala da minha casa, eu me pegava reclamando de um rasgo no sofá. Aquele rasgo começou a me incomodar. Desejei um sofá novo, só que o dinheiro não dava para comprar. Como aquele rasgo incomodava! Até que um dia percebi que existia uma sala inteira além do rasgo. Um tapete bonito e cortinas que combinavam com o tapete. A televisão que comunicava e fazia a família sentar junta para assistir à novela. A janela grande, bonita. A mesinha com os enfeites e um jarro de flores. Sempre gostei de flores.
Na vida é assim. Tudo depende de para onde focamos o nosso olhar. Olhamos o defeito? Olhamos o problema? Ou será que conseguimos nos aproximar da cerca e ver entre as madeiras que tem um jardim enorme esperando por nós?
A sala toda era tão bonita e aconchegante – pude ver. O pequeno rasgo no sofá era apenas um detalhe. E deixou de incomodar.


Maria Carol Reis

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

10 maneiras de ser feliz

Muito bom esse título, né?! Se a intenção fosse vender um livro, um filme, um seriado, ou uma linha de cosméticos. Mas o que venho aqui dizer é que não concordo mais com livros de “pura” auto-ajuda, nem com promessas simplórias de felicidade plena. Talvez, e repito, talvez existam 10 maneiras de emagrecer, 10 maneiras de melhorar o seu cabelo, 10 maneiras de alcançar sucesso profissional... Talvez. Estou admitindo uma hipótese, uma possibilidade. Longe, muito longe de qualquer certeza. Pois já li, mas nunca experimentei e algumas que experimentei não deram muito certo. De uma coisa, porém, falo com convicção, experiência e sorriso nos lábios: não existe um número exato, nem fórmulas prontas para alcançar algo tão grandioso chamado por nós de felicidade.
Primeiro, confunde-se felicidade com tantas outras coisas: ter bens, ser amado, sentir-se realizado, ser útil, preencher o tempo, ter muitos amigos, ter sucesso, sentir-se alegre, sentir-se bem... Justo eu que sou amante das palavras e da arte de comunicar através delas, falo aqui da complicação de usá-las: definir é muito difícil e limitado. Não penso eu, realmente não tenho este ideal, que até desta página direi a você o que é ou como fazer para ser feliz. Bem diferente, quero partilhar minhas buscas e vontades, e a percepção de que o caminho é tão singular quanto cada um de nós.
 Por favor, queridos em quem um dia já acreditei, não me venham mais dizer para fazer assim ou assado, pois o que é ótimo para você, provavelmente não é para mim. Então, me conte da sua vida ainda, continue partilhando sua alegria, mas sem tentar me convencer de ser igual. Até porque a graça é ser diferente.
Hoje de manhã, ao me olhar no espelho, quis fazer uma ação mais demorada e satisfatória. Perceber as medidas do meu rosto, o tom castanho dos meus olhos, as marcas de tempo que já rugem na juventude, a cara de sono aliviada pela água cristalina da manhã, a boca sedenta... O reflexo era diferente porque assim também era a minha vontade de olhar. Tanto que eu pude me admirar com um rosto que vejo todos os dias, como se fosse um rosto novo. E, sabe, acho até que nem vejo todos os dias, por às vezes passar pelo espelho com meu olhar desinteressado e me esquecer da curiosidade, da curiosidade de me descobrir de novo e me surpreender.
Acho que isso é um pouco do que até hoje consegui descobrir e formular: não como posso ser feliz, mas sim que, para descobrir esse “como”, preciso de um olhar curioso e cheio de vontade de ver e de se surpreender comigo mesma e com a vida.
Hoje para mim a felicidade é a palavra mais abstrata, não-palpável, muito significante e múltipla em suas possibilidades e relações, e, por esses e outros motivos, muito concreta. Não estou falando o ininteligível, nem posso simplificar o que é tão amplo e intenso. A felicidade está no amor, está na fé, está em mim, está no outro, está em Deus, está na plenitude, está no Bem, está no ser e no fazer, está no estar, está no acontecer, na alegria e na dor, na espera e na realização, na verdade e na busca, de alguma forma no provisório e de forma completa no eterno.
Não vou deletar o título, mas termino: “sem maneiras de ser feliz”, ou “tantas maneiras de ser feliz”. De certa forma “auto-ajuda” é interessante, se prestarmos atenção na palavra: ajude você mesmo, ainda que outros ajudem você, pois ninguém pode afirmar qual é o caminho. E isso não é nenhum relativismo. O caminho é singular. A resposta é pessoal. O chamado é único. E a felicidade vem.

Maria Carol Reis

"No fundo é simples ser feliz, difícil é ser simples."

Certo dia, ouvindo uma palestra, deparei-me com a verdade libertadora: simplifique seu olhar. Um trauma não existe no fato em si, mas na maneira como eu o interpreto. Descomplicar é o segredo. Observar os detalhes, observar com atenção, observar a mim, observar apenas... e eu lembro uma oração: "Senhor, me ensina a ver as coisas como elas são."

Maria Carol Reis

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Qual a diferença entre conto e crônica?

"Conto é tudo que eu chamo de conto." Disse Mário de Andrade.
Após muito tempo de pesquisas insatisfeitas e definições simplórias ou incoerentes, me deparo com a resposta que já não buscava... agradeço pela declaração simples e compartilho o tesouro encontrado.

Maria Carol Reis

terça-feira, 4 de outubro de 2011

O que você faz em mim


Já perdi as contas eu acho
das vezes em que o seu olhar me descobriu
de quando pude me entender, me enxergar
a partir do que você consegue ver.
Porque você sorriu
eu descobri a vida mais fácil de lidar
deparei-me com sonhos guardados em mim
e aprendi cores que desconhecia
e vontades que ainda não sabia querer.

As vibrações desses sonhos
e a sensibilidade da tua voz:
de braços dados – harmonia.
As cores do seu rosto
e a sua maneira de olhar:
meu território – alegria.
As pétalas que caem
e as novas que se fazem:
construindo-me – ousadia.

E querer você vai iluminando as minhas manhãs
como radiação de um Sol maior...
as sua manias e manhas,
desejos e esperas,
contos e cantos
com sabor de primavera
após inverno
O seu amor me floresce.

Maria Carol Reis

Poesia: Psicoterapia

Começa a minha terapia
não é preciso marcar hora
eles estão sempre ali
empoeirados por fora
esperando eu os abrir
Escolho a capa, o título,
aquele que me quer dizer
aquele a quem quero ouvir
e a conversa se inicia
Efeitos colaterais:
vista cansada
óculos futuros
Invasiva solidão
taquicardia
mente acelerada
coração ardendo em paixão
curiosidade ansiosa
não existe tempo
não há regras
não há fronteiras
terceira margem
viagem audaciosa
estranhamente a sós
num preencher vazios meus
dialogando com o olhar alheio
alma relaxada
descanso arteiro
bem eterno
leitura ativa
hermenêutica
contemplativa
sedutora
terapêutica

Maria Carol Reis